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13/07/2015 12:00

Entrevista de Josias Gomes ao jornal A Tarde

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ENTREVISTA - Josias Gomes (PT), secretário de Relações Institucionais

 

DEPUTADOS QUE AJUDARAM A ELEGER RUI TÊM DIREITO A CARGOS

 

RODRIGO AGUIAR

 

Licenciado da Câmara Federal para assumir a Secretaria de Relações Institucionais (Serin) do governo Rui Costa, Josias Gomes considera natural o fogo amigo dos deputados da base aliada, insatisfeitos com a distribuição de cargos. “Não sinto que haja uma pressão dos deputados para que a gente dê os cargos. Há um direito dos parlamentares, que contribuíram para que o governador Rui Costa, o senador Otto Alencar e a presidente Dilma fossem eleitos”, afirma Josias. Segundo ele, é a política que move toda ação de um governo. “Embora a gente tenha buscado os técnicos para desempenhar as funções técnicas, mesmo ali haverá de imperar a política”, diz.

 

 

Muitos deputados estaduais têm dito que não recebem um “bom tratamento” do senhor. A que atribui estas críticas?

Josias Gomes - A atividade da Secretaria de Relações Institucionais é eminentemente política. E, em política, todos têm uma análise situacional. É natural que os deputados, pelo peso e importância que têm na sociedade política baiana, reivindiquem e considerem que estão sendo aquinhoados no governo com uma parte menor do que consideram necessário. Essa amarração é que gera o descontentamento. Eu tento buscar um equilíbrio, mas não é muito fácil, visto que nós temos uma bancada de governo com 42 deputados, espalhados pela Bahia inteira.


Mas recentemente foi convocada uma reunião com os líderes e parte deles não foi. Não foi um recado?

Josias Gomes - Aquela reunião, na qual nós chamamos os líderes, é uma novidade. Na verdade, a relação era muito mais direta com o presidente da Assembléia, que tem sido um parceiro importante do governo, junto com o líder do governo. Os dois compunham, junto com o governador e com quem estava na Serin, o quarteto que conduzia as negociações. O governador Rui Costa quis introduzir um elemento a mais, que são os líderes dos partidos da base aliada, para dar uma valorizada às bancadas e aos partidos. Nós vamos disputar uma eleição em 2016 e precisamos dos partidos. Essa é uma relação que ainda precisar ir se consolidando. Não creio que foi um sinal de que algo andava errado. Penso que é sempre a busca de um aprimoramento.

 

Percebeu alguma tentativa de tirá-lo da secretaria, alguma pressão muito forte?

Josias Gomes - Teve uma movimentação, muito pela imprensa. Pessoalmente, eu não recebi nenhuma pressão dos colegas parlamentares. Mas isso circula no ar, porque É sempre muito tensa essa relação. Essa função é da confiança irrestrita do governador. Aqui, há uma ligação muito direta. Eu não tenho autonomia política para agir. Faço tudo em comum acordo com o governador. Eu não sou de uma área finalística, onde o secretário vá tocando as questões. Aqui, tenho que ter uma sintonia fina com o governador e representá-lo na relação com os políticos de forma muito digna. Repare só: a atividade de um governo é, como um todo, política. Embora a gente tenha buscado os técnicos para desempenhar aquelas funções técnicas, mesmo ali haverá de imperar a política.

 

O presidente da Assembléia, Marcelo Nilo, disse que Rui deveria gastar pelo menos 10% do seu tempo fazendo política. Enxergou uma crítica à forma como é conduzida a relação entre governo e base aliada?

Josias Gomes - As viagens que o governador faz, as ações que ele busca fazer, são políticas na sua essência. Eu acho essa separação entre o gestor e o político uma coisa muito tênue. Respeito a opinião de Marcelo Nilo.

 

O senhor concorda?

Josias Gomes - Concordo com a tese de que a política move toda ação de um governo. Há os que dizem que há uma diferença; e há, entre a presidenta Dilma e o ex-presidente Lula. Agora, ambos fizeram muito pelo país no que a gente chama de gestão da coisa pública. A forma e o jeito de cada um se relacionar com a política stricto sensu é que muda.

 

Com a crise, o governo federal bloqueou o pagamento de emendas aos deputados. Como é que aqui vocês podem garantir que o governo vai pagar as emendas impositivas, no valor de R$ 1,2 milhão para cada um dos 63 deputados estaduais?

Josias Gomes - Eu fui procurado pelo presidente da Assembléia e os líderes de governo e oposição para discutir esta questão. Fiz um debate com eles e fiz ver que era necessário aguardar o mês de agosto para a gente ter um posicionamento mais claro do que vai ser a economia no segundo semestre. Eu conversei com o governador sobre este tema, por diversas vezes, e ficamos de manter esta linha, para evitar uma promessa e, em seguida, não cumpri-la. Há uma responsabilidade muito grande dos parlamentares quando buscam aprovar os projetos que nós enviamos para a Assembléia no intuito de melhorar o desempenho financeiro, administrativo, etc.E também eles buscam a reciprocidade naquilo que eles têm direito, como estas emendas. Creio que vamos ter segundo semestre muito complexo, mas teremos que, pelo acerto que foi feito com o governador e o presidente da Assembléia, apresentar em agosto um calendário de pagamento – e não foi preciso de quanto será esse recurso. Lá em Brasília, os deputados federais vão ter apenas R$ 8 milhões, dos R$ 16 milhões que estavam previstos. Em uma hipótese muito remota, poderá chegar a R$ 12 milhões. Então, eu não sei o montante que nós vamos oferecer aos parlamentares, mas em agosto nós faremos isso.

 

O senhor falou que os deputados têm responsabilidade na aprovação dos projetos,mas também buscam ser atendidos...

Josias Gomes - Não é uma relação de troca. É da atividade parlamentar. As emendas impositivas não podem ser objeto de negociação. O que eu tenho que negociar com eles é quanto. Eles têm direito constitucional.

 

Até porque o Orçamento impositivo foi aprovado. Mas, em relação a cargos, por exemplo, o que se disse na Assembléia nos últimos meses é que deputados insatisfeitos com a distribuição de cargos no interior poderiam dificultar votações para o governo. O que acha dessa relação?

Josias Gomes - Existia uma quantidade de cargos, que eu não sei exatamente quantos,mas seguramente hoje nós temos, entre cargos de grande e menor importância, 380 cargos. E foram extintos alguns órgãos, como a EBDA, que tinham muitos cargos no interior. Eu considero normal que os deputados da base busquem espaço no governo que eles ajudaram a eleger. Não sinto que há uma pressão dos deputados para que a gente dê os cargos. Há um direito dos parlamentares, que contribuíram para que o governador Rui Costa, o senador Otto Alencar e a presidenta Dilma fossem eleitos. Não vejo nenhuma razão para se alegar que há uma busca incessante por cargos. Isso é do jogo da política desde sempre. Não é de hoje que há essa divisão e busca por espaços políticos, que terão que ser ocupados por quem lutou para que a gente conseguisse governar a Bahia.


Vai disputar a eleição em 2018?

Josias Gomes - Estou hoje muito bem posicionado nesta missão difícil e espinhosa, mas fazendo com todo o gosto e esforço para que dê certo. Sou político desde sempre. Em 2018, quero ser testado de novo nas urnas. Ainda não sei o que você pretende (com essa pergunta), mas sou candidato a deputado federal.

 

Está descartada uma candidatura ao Senado?

Josias Gomes - O fato de ser deputado me coloca na posição de buscar a reeleição. Outros postos dependerão da conjuntura, do que o Partido dos Trabalhadores e os aliados definirem lá na frente. Nós estamos com seis meses do governo Rui. Ainda tem três anos e meio. É muito tempo para a gente se projetar.

 

Muitos petistas históricos defendem que o PT deve lançar o máximo de candidaturas próprias em 2016. Já a direção do partido acredita que, em alguns casos, é preferível apoiar aliados que tenham condições melhores. Qual a sua opinião?

Josias Gomes - Para a eleição do companheiro Rui e a votação da companheira Dilma na Bahia, os aliados foram necessários. Sozinho, o PT não ganharia as eleições. Não cabe a nós estreitarmos esse leque no momento em que precisamos repensar essas relações políticas e discutir mais com os nossos aliados. É sempre bom a gente lembrar que nós temos eleições a cada dois anos. Precisaremos dos aliados novamente, e eles de nós. Creio que o caminho para a harmonia total da nossa coalizão é fazer este entendimento que o presidente (do PT baiano) Everaldo está propondo.

 

O senhor tem conversado com o senador Walter Pinheiro? Ele fica no partido ou sai?

Josias Gomes - Conversei com ele ultimamente algumas vezes. Ele não me disse que sairia do PT. Fez críticas à condução da política econômica do governo, mas não é só ele que faz.Pinheiro é um dos quadros por quem nós temos muito respeito e carinho. Fundador do PT, dedicou a vida política dele a essa trajetória do partido. Para nós, a saída do Pinheiro é uma perda. Mas aguardaremos os próximos passos. O governador também tem procurado dialogar com ele. E vamos continuar conversando.

 

Tem falado com o ex-ministro José Dirceu, seu amigo, ultimamente? Pelo que tem acompanhado do noticiário, acha que há possibilidade de ele ser preso novamente?

Josias Gomes - Ultimamente, não estive com o companheiro Zé Dirceu. Por telefone, tratei com ele uns três meses atrás. É difícil prever. Eu não tenho nenhum elemento que me leve a opinar que sim ou não. Não seria eu a procurar uma informação dessa natureza, porque não serve para mim. Não me ajudaria em nada saber nem eu teria interesse de tratar esse tema com ele.

 

Mas, na época do julgamento do mensalão, o senhor disse que a condenação dele foi injusta...

Josias Gomes - Aquele período não foi fácil. Eu confesso que aquilo é uma coisa muito dolorosa. Ele (Dirceu) é de uma geração anterior à minha. Nós temos por ele uma deferência. Eu vim do movimento estudantil, participei da resistência à ditadura militar, também em organizações clandestinas.

 

O senhor até recebeu R$100 mil vindos do “valerioduto”, mas disse que não sabia a origem do dinheiro...

Josias Gomes - Na época daquela ação penal lá, eu era presidente do PT na Bahia e deputado federal. Estava relacionando-me com a direção nacional. Mas é uma página que, para mim, está virada. Sem rancor, sem mágoa. O papel que cada um teve ali na condução das questões é que tem que ter o seu juízo de valor.


Foto: Eduardo Martins / Ag. A Tarde / 9.7.2015

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